Always Somewhere

Always Somewhere

Arrive at seven the place feels good
No time to call you today
Encore till eleven then Chinese food
Back to the hotel again
I call your number the line ain’t free
I like to tell you come to me
A night without you seems like a lost dream
Love I can’t tell you how I feel
Always somewhere
Miss you where I’ve been
I’ll be back to love you again
Another morning another place
The only day off is far away
But every city has seen me in the end
And brings me to you again
Always somewhere
Miss you where I’ve been
I’ll be back to love you again
Scorpions – Composição: Klaus Meine
Da série: músicas mais lindas da minha caixinha…

Existe sempre uma coisa ausente

Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.

Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos há 2o anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da Guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.

Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.

Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad , homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.

Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.

Caio F. Abreu in O Estado de S. Paulo, 3/4/1994

I want you

I want you.

Embalado pra presente num pacote dourado.

Momento histórico.

Vai sair de fininho e encher de luz a minha vida.

Vai pegar a minha mão, bem obediente, e confessar envergonhado, que nem criança: “Me rendo“.

Vai me prometer tudo e se deliciar com essa mistura nada óbvia de fácil e difícil que eu sou.

Sedento de amor escandaloso, de paixão atordoada, de prazeres frenéticos.

Vai desvendar todos os meus contornos, me livrar das máscaras e espadas, destruir minha severidade.

Criará raízes.

Permanecerá.

O único caminho entre nós é a reta que nos separa.

Tô com pressa de ser feliz.

Apura.

Arrumando a bagunça… Ou não…

Para mim papéis são sagrados! Guardo uma pasta de papéis de carta, várias folhas de fichário que ganhei desde 1997, guardo cartas, recados, bilhetes… Tanta coisa! Me dispor a arrumar tudo isso foi uma luta! Luta com a preguiça e com a memória!

Vi recados inocentes, bilhetinhos in the love, cartinhas de amigas, de irmãos… Vi uma parte de mim que eu nem lembrava que existia.

Achei cartões de aniversário que ganhei em 2003 – 16 aninhos… (Cabem todos os suspiros do mundo aqui!)

Parei num diário (sim eu ainda tenho um diário, ok?) de 2007 – eita ano difícil – li, reli, chorei, ri… Sonhei novamente aqueles sonhos

antigos, me vi ainda meio criança crescendo, aprendendo o tal amor puro, familiar… Sofrendo pela certeza da saudade que um dia ia chegar… E, tempos mais tarde, quando ela de fato chegou eu não sabia nada dela, aliás ainda hoje não sei!

Depois, fui para as cartas, os bilhetes, recados… Coisa que esquenta a memória, aguça os sentidos. Pensei: “Se alguém nunca me escreveu um “Oi”, se não conheço a letra da pessoa… Não conheço a pessoa! Nada com análise de grafia, mas é um conceito meu, oras!”

Essa história de armazenar histórico de msn, e-mails, sms’s e etc., comigo não rola. Eu gosto é do papel, da marca da tinta, do formato das letras.

Passei os olhos num telefone escrito num post-it amarelo a capa de uma agenda: um número, um nome e um branco na memória tão grande que até me assustou!  O tempo passou… Juro que não acreditava que iria sobreviver, mas o tempo passou e eu sobrevivi! Hoje só restou um nome e um número anotados numa agenda esquecida do ano de 2007, ou seria 2007?

Decidi jogar uns diários no lixo, guardar outros… Pois é! Me desfiz de umas memórias físicas, mas as lembranças permanecem ainda aqui, agora mais aguçadas.

Pior acho que agora, por uns dias, a bagunça não estará mais lá fora e sim aqui dentro… A gente erra se arrepende e fica a consciência pesando nos lembrando. A tal da memória, que no meu caso é seletiva, por vezes se atrapalha e escolhe as lembranças erradas para rememorar.

E a gente inventa de cutucar… E faz doer, mas só assim para cicatrizar.