A meu respeito!

“Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão. Tranqüilidade e inconstância, pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser. Não me limito, não sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer… Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca.”

— Clarice Lispector

* Para o amor mais lindo dos amores do mundo que teima em dizer que não me entende…

A Primavera

Aproxima-se a perigosa época dos namoros, dos poetas, das músicas. Lá vem a primavera! Como a murta floresce, após meses infindáveis de esquecimento, embaixo da terra gelada, vem a primavera.

Casais se juntam aos pares. Juntam-se para a procriação ou para o prazer. Juntam-se para amar e para trair. Lá vem a primavera.

Por onde vou, por onde estou, mãos dadas e corpos colados, preparando-se para a crise do fim do inverno. Lá vem a primavera. E com ela a carência. E querença desesperada e a busca desenfreada em achar um par. Na faculdade, várias duplas aparecerem juntas, após o período de hibernação das férias. Assumidamente ou não. Amigos de longe e de perto. Estranhos na rua. Meu avô de 80 anos. A cadela da vizinha. Os mais tímidos, os mais belos. Os resignados e os suicidas. Todos prontos pra se entregar. Até mesmo eu, a última das mocinhas românticas, arrebatada!

Lá vem a primavera…

Pode ser a dança de uma bailarina, uma dança sutil. Ou o jogo rápido de um bom jogador. A flor pequena de uma moça ou os caprichos de uma analista. Lá vem a primavera. Pode ser a palavra antiga e o estilo novo. Pode ser difícil, proibido. Pode ser a sombra ou o desejo que habita somente nos olhos. Pode ser a doença ou a eloqüência. Lá vem a primavera.

Sim.

The love is in the air.

Contagiou! Invadiu os capitalistas e os planejadores em formação. Começou com os jovens e terminou nos mortos. Ninguém escapou. Os que latem e os que se calam. Ninguém pode negar. Lá vem a primavera!

E a todos os que negarem, os que bem sozinhos estiverem, florescerão na primavera, até o fim dela e procriarão. Pedirão mais e mais desse mel repentino e fugaz que nasce com as flores e morre no verão.

Lá vem a primavera e com ela seu amor. Lá vão os casaizinhos, juntos, em exaltação. Lá vêm os carentes, em procuração. Os solitários, em extinção. Lá vem a primavera!

Para um(a) amante em negação! Sente falta de sentir?

PS: Sim, depois do sexo, vem o amor!

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Que seja doce

“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante… Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”

Feliz aniversário: Caio F. Abreu – 12/09 62° aniversário!

Aos deuses de tudo que existe

Não, os jardins não morrem no inverno, como os animais ou as pessoas, principalmente as mais velhas, apenas sofrem um pouco mais fundo do que de costume. Alguns, verdade, sucumbem. Minha vó Corruíra, por exemplo, costumava dizer: “Acho que deste agosto não passo”. E houve um do qual realmente não passou. Mas isso talvez fosse o destino, ou morre-se mais facilmente no inverno? sobretudo invernos gaúchos, quando o minuano vara frestas e fendas para cortar a pele feito navalha gelada. Enregelados, atravessamos agostos que parecem eternos e, nos setembros, suspiramos quase leves outra vez: “Meu Deus, passou”. O que vezenquando é puro engano: há pequenos agostos embutidos no entremeio dos doidos setembros.
Coisas assim, eu penso e aprendo olhando meu jardim sobrevivente. Óbvias, quem sabe. Pra mim, não: é que nunca antes na vida tive um jardim. Que nem sequer, e ainda bem, é só meu. Tem a mão mais antiga de meu pai, e também o “dedo verde” de minha irmã Cláudia, que me ensina toques espertos contra pragas. Por que existem as pragas. Ah, se existem. E bem mais que as sete bíblicas. Fora os agostos, formigas-cortadeiras, caracóis, lesmas, pulgões, ácaros, cochonilhas e falanges do mal de nome ainda mais esquisito que esse último. Armados até os dentes, lutamos. Todo santo dia. Guerra sem tréguas, Bósnia.
Contabilizo perdas: foram-se a angélica, begônias, lágrimas.de.cristo que eu achava que eram brincos-de-princesa (meu pai jura que voltam), uma dália amarelinha adorada pelos erês de Oxum e outras muitas. A hortênsia empacou, o jasmineiro agonizou, mas resistiu bravo. Já as margaridas ficaram ainda mais folhudas, os gerânios cresceram loucamente e as roseiras se revelaram inesperadamente fortes, com menos de um ano de vida e de um metro de altura. A branca Lygia certos dias chegou a render nada menos que seis rosas. Todas abertas ao mesmo tempo, numa apoteose a Oxalá (sugestão para fantasia carnavalesca). O belo fica ainda mais belo, quando também é forte? Pois é.
E teve certa amarílis, que em julho dei por perdida. Semana passada, arrancando baldes de ervas-daninhas de nojentas raízes brancas estranguladoras, a alegria: como uma ponta de espada brotando da terra, miniexcalibur. Ao contrário, lá estava a amarílis nascendo outra vez. Limpei mais, adorei, conversei, bravo, é isso aí, minha filha, não se entrega não. Happy end? Ledo engano: manhã seguinte, a pontinha de espada não passava de um toco roído durante a noite não sei por que abanteÁsma (só mesmo usando essa palavra) das trevas. Continuamos lutando, juntos, a amarílis e eu. Mas quando você pensa que um perigo medonho passou é porque outro ainda pior está vindo? Oh, Deus. E o perigo-passado realmente deixou você mais forte para o perigo-vindouro? E se só ficou o cansaço e se a amariis desistir? E se eu desistir e for cuidar das verbenas, cravinas e amores-perfeitos que acabei de plantar?
Aprendem-se coisas, eu dizia. Vezenquando, assustadoras.

Mas lutamos, eu também dizia. E olho agora para trás e vejo na estante às minhas costas, bem à frente de um livro com reproduções de Egon Schiele, aquela árvore japonesa da fortuna e da felicidade, quando percebi que não superaria o inverno, transplantei-a do jardim para o meu quarto. Era um resto negro calcinado pela geada. E quase invisível, um pontinho verde de vida na base. Fui até lá agora e medi: está Com mais de meio palmo de altura empinadíssima, viva.
Então eu agradeço, eu tenho medo e espanto e terror e ao mesmo tempo maravilhamento e outras coisas com e sem nome, mas agradeço. Aos deuses dos jardins, aos deuses dos homens, aos deuses do tempo e até aos das ervas daninhas que nos fazem lutar feito tigres feridos fundo no peito, sim, eu agradeço.

De Pequenas Epifanias – que bem poderiam ser um relato da minha história, com meu pai, meus amores, meus jardins, meus desejos… De mim!